Por: Alexandra A.Oliveira e Ana maria Zanoni.
1 Introdução
Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
- Fernando Pessoa
As linhas que aqui seguem são fruto de um sonho. O sonho de penetrar no âmago da poesia de um poeta brasileiro, considerado pela crítica como um dos expoentes da “bossa nova”.
Vinicius viveu como poeta e descreveu em sua poesia essa vivência, tomado pelo extremo da paixão. Ele viveu sempre no cerne da emoção e como afirma Ferreira Goulart, “suas poesias são a junção da elegância, da técnica e da linguagem popular, jeito simples de falar de coisas lindas ou simplesmente importantes”.
Classificá-lo simplesmente como um poeta modernista é um erro, pois mesmo no Modernismo, nenhum poeta foi tão fundo nas raízes brasileiras e trabalhou tão bem influências de outros períodos literários, como o simbolismo e o parnasianismo.As poesias de Vinicius falam ao coração de todas as gerações, são atuais em qualquer tempo, pois ele descobriu um jeito único de falar da vida, das pessoas e do amor, encantando e envolvendo o leitor.
Ler suas poesias é um encantamento, um viajar nas palavras e na beleza de um mundo único, que ele criou para falar aos nossos corações. Ouvir suas músicas nos enleva, faz bem pra alma e para o coração.
Estudar sua vida traz espanto, por conhecer o homem que se casou nove vezes, bebia no palco, gastava todo seu dinheiro com os amigos, escreveu a célebre frase: “O uísque é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado”.
A crítica foi dura com Vinicius, pois ele começou falando do alto, dividido entre o céu e a terra. Sua poesia era feita seguindo os moldes clássicos, influencia de sua formação erudita, mas de repente, ele apresentou uma poesia diferente, com estrutura perfeita, nos moldes clássicos clássica e uma linguagem comum, simples, vibrante, forte e encantadora. Mas Vinicius não se contentou em ser poeta, foi também letrista, funcionário público estrela da Bossa Nova.
Falar de Vinicius é fazer uma viagem ao mundo do poeta que escreveu Garota de Ipanema, Soneto de Fidelidade e Balada do Mangue entre tantas outras obras encantadoras e surpreendentes.
Na primeira parte deste trabalho delinearemos um breve esboço do Modernismo e suas características. Para melhorar a compreensão das características da poesia modernista, ainda nessa parte do trabalho apresentamos um panorama da poesia modernista brasileira. A seguir focamos a importância de Vinicius e sua obra para a poesia daquele período.
A terceira parte do trabalho apresenta a obra de Vinicius de Morais, bem como alguns aspectos de sua biografia , os quais foram relevantes para a obra do poeta.
Na quarta parte do trabalho, apresentaremos a análise do poema “Poética”,, na qual poderemos demonstrar a singularidade da poesia de Vinicius de Moraes, intrínseca a sua vida e ao seu jeito de olhar o mundo e as mulheres. Nesse poema, Vinicius fala da sua sede de vida, do agora e elege a forma de soneto, na qual insere jogo de palavras que mostra quanto viveu o instante e quanto sua personalidade de poeta foi fundamental para criação do homem que encantou o mundo com suas músicas e poesias.
Nas considerações finais apresentaremos os aspectos da poesia de Vinicius de Morais que revelam a junção da forma clássica com a linguagem do cotidiano e o uso de vocabulário simples, características da poesia modernista que fizeram do poeta um dos grandes nomes da literatura brasileira e demonstram a atemporalidade de sua criação.
2 O Modernismo no Brasil
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
- Oswald de Andrade.
O Modernismo, como se pode constatar por meio do trecho do Manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade destacado como epigrafe desta seção, foi um movimento literário que visava à explorar a linguagem tal como a empregamos no dia-a-dia, ausente de termos eruditos, inversões sintáticos e arcaísmos.
A crítica literária, geralmente, divide o movimento modernista entre Pré- Modernismo e Modernismo. Segundo afirma Cereja, o Pré-Modernismo teve inicio com o fim da Belle Époque, período entre 1980 a 1914. O contexto cultural daquela época, segundo afirma Santana (2009), era o otimismo róseo, a busca por luxo , riqueza e paz, na qual nasceram também os cabarés, o Cancan e o cinema.
O fim da Belle époque se dá com as tentativas frustradas de evitar a Segunda Guerra Mundial, pois o mundo percebeu o caos que se instalou e buscou retratar a realidade de maneira simples e direta fugindo do tradicional e do ilusório, nascendo assim o pré modernismo.
Cereja afirma que a arte tomou novas formas, das quais resultaram movimentos como o Impressionismo e a Arte Nouveau.
O Impressionismo segundo Cereja, 1995. vem a ser:
(...) um movimento artístico que surgiu na França no século XIX, a técnica consistia em pinceladas soltas que trabalhavam luz e movimento, geralmente pintadas ao ar livre buscavam capturar as nuances da luz e da natureza, uma arte alegre e vibrante repleta de nuances luminosas, transparecia felicidade e harmonia.
Os principais representantes desse grupo foram: Monet, Vicent Van Gogh, Dégas, Cézanne, Caillebott e Mary Cassatt.
A Arte Nouveau, por sua vez, é um estilo de arte e arquitetura que surgiu na Europa e nos Estados Unidos entre 1883 e 1910, seu nome foi inspirado na galeria parisiense L’Art Nouveau, aberta em 1895 pelo comerciante de arte e colecionador Siegfried Bring.
Assim diz sobre a arte Noveau Alencar, Valéria Peixoto:
O art noveau preocupava-se com a originalidade da forma, tinha relação direta com a Segunda Revolução Industrial e com a exploração de novos materiais, como o ferro e o vidro (principais elementos dos edifícios que passaram a ser construídos segundo a nova estética), e os avanços tecnológicos na área gráfica, como a técnica da litografia colorida, que teve grande influência nos cartazes.(2009.Artes,03).
São representantes dessa arte Hector Guimard, arquiteto que construiu entre outras coisas as entradas de ferro forjado do metrô de Paris (1900); O islavo Mucha, artista gráfico que em Paris desenhava cartazes de peças de teatro muito em voga na época; Antoni Graudi, Catalão de Barcelona, sua obra mais notável foi o projeto inacabado da Catedral da Sagrada Família em Barcelona, mas também construiu o porque Guell e a casa Betló.
No Brasil o destaque vai para Eliseu Visconti, pioneiro no design no país, sua primeira tela premiada foi Gioventu em 1900, participou também da decoração do teatro municipal do Rio de Janeiro inaugurado em 1909.
Esses movimentos de vanguarda foram tentativas de espalhar pelo mundo a maneira como o modernismo enxergava o mundo e as artes, através desses movimentos o mndo passou a conhecer as principais características do modernismo.
Andrade (2007), afirma que o termo Pré-Modernismo foi criado por Alceu de Amoroso Lima para designar, no Brasil, o período de 1902 a 1922.
O Brasil do Pré-Modernismo, segundo afirma Alfredo Bosi (2006), era um país que passava por mudanças políticas e econômicas, como o fortalecimento da Republica e o domínio de dois Estados Brasileiros, São Paulo e Minas Gerais. O primeiro pelo grande poder econômico, o segundo pelo potencial eleitoreiro. Ainda, na mesma época, havia a questão dos imigrantes que vieram para o Brasil trabalhar nas lavouras e nas indústrias. Os imigrantes professavam idéias anarquistas e revolucionárias do Modernismo pelo mundo.
Segundo Bosi (2006), a junção de todos desses ingredientes formaram, no Brasil, o momento ideal para o surgimento de um movimento que buscava a renovação, o inédito.
Do quadro emergem ideologias em conflito: o tradicionalismo agrário ajustava-se mal à mente inquieta dos centros urbanos, permeável aos influxos europeus e norte-americanos na sua faixa burguesa, e rica de fermentos radicais nas suas camadas média e operária. No limite, a situação comportava: uma visão do mundo estática quando não saudosista, uma ideologia liberal com traços anarcóides; um complexo mental pequeno burguês, de classe média, oscilante entre o puro ressentimento e o reformismo e uma atitude revolucionária. (BOSI, 2006, Pg.304)
No cenário literário, a transformação se deu aos poucos e as primeiras obras Pré-Modernistas ainda continham traços do Realismo-Naturalismo, como a objetividade, o materialismo, o cientificismo, o determinismo e a crença na razão.
O Realismo-Naturalismo, na concepção de Ulisses Infante (2005), foi o movimento anterior ao Modernismo, cujo foco era o ser humano, geralmente retratado de forma a desmascarar e enfatizar as fraquezas e a fragilidade de caráter. Em obras como O Ateneu de Raul Pompéia e O Cortiço de Aluízio Azevedo é possível observar a influência do meio ambiente sobre as personagens principais, revelando assim os traços do determinismo, característica marcante do Realismo-Naturalismo.
Essas características podem ser apreciadas em Recordações do Escrivão Isaias Caminha (1909), de Lima Barreto, que pode ser considerada como pré modernista por conter uma linguagem coloquial própria do Modernismo.
Mesmo assim, podemos observar duas grandes mudanças ocorridas no Pré-Modernismo, tal como afirma Cereja: “o artista passa a enxergar a realidade brasileira e busca uma linguagem mais simples e coloquial” (2006.p263.). A visão da realidade brasileira e o uso da linguagem simples são atitudes contrárias as do realismo-naturalista, período em que se enxerga o homem e.trabalha sua personalidade de maneira geral, sem se ater a uma realidade específica de uma nação ou cultura.
Para Infante, 2005, o Pré-Modernismo foi uma época de nacionalismo temático: um nacionalismo crítico, questionador, sendo assim concebida como um instrumento de ação social.
O nacionalismo critico impulsionou a fundação de várias revistas por todo país, como por exemplo, a Revista Floreal em 1911, que sobreviveu apenas até sua 2º edição, pois criticava a imprensa e tinha como objetivo mostrar as falhas e hipocrisias da burguesia brasileira.
Constata-se, portanto, que o Pré-Modernismo, foi o período, no qual foram disseminadas as bases do Modernismo, sobretudo no que diz respeito à libertação dos padrões estrangeiros.
Fizeram parte daquele período, escritores como: Euclides da Cunha (Os Sertões), Graça Aranha (Canaã), Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma) ,Monteiro Lobato (Urupês) e Augusto dos Anjos (EU).
Euclides da Cunha, segundo Infante (2005), foi um dos grandes representantes do Pré-Modernismo. O carioca, engenheiro e Republicano convicto, com formação militar foi escolhido pelo jornal O Estado de São Paulo, para cobrir a Guerra de Canudos. As influencias da guerra podem ser facilmente percebidas em Os Sertões (1902), romance que revelou a face ignorada da cidade Canudos, considerada como anarquista e anti-republicana.
A obra de Euclides da Cunha, segundo Ulisses Infante (2005), inicia a geração Pré-Modernista preocupada com a realidade brasileira. Os autores daquele período trabalhavam o texto, tomando por base as teorias daquela época, tais como, o determinismo, o positivismo e também valendo-se de conhecimentos de sociologia e geografia natural humana.
O grande destaque da obra, embora o livro todo seja uma obra de arte, diz respeito ao fato de que Euclides colocou-se ao lado dos sertanejos, contradizendo tudo que se dizia sobre Canudos, ao revelar que a verdadeira violência vinha dos homens do governo.
Fez parte dessa geração Pré-modernista também o escritor Afonso Henrique de Lima Barreto, conhecido por Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881 e falecido em 1922.
Lima Barreto era mulato, pobre e cultor da linguagem simples. Lima Barreto foi um dos únicos Pré-Modernistas a trabalhar com uma linguagem coloquial e, segundo Infante, suas obras foram criticadas por fugirem dos padrões acadêmicos da época que valorizavam uma linguagem culta. Em suas obras Lima Barreto, aborda o racismo, o preconceito e critica a sociedade e a imprensa numa linguagem simples.
A influência maior de sua obra encontra-se em sua própria vida, o cenário do Rio de Janeiro e sua gente humilde, as dificuldades que passou o preconceito que viveu e até seu próprio vicio pela bebida, formaram um autor sarcástico, que trabalhava personagens políticos vazios, vaidosos e tomados pela ganância.
A biografia de Lima Barreto explica o húmus ideológico da sua obra: a origem humilde, a cor, a vida penosa de jornalista pobre e de pobre amanuense, aliadas à viva consciência da própria situação social, motivaram aquele seu socialismo marxista, tão emotivo nas raízes quanto penetrante nas análises. (BOSI, 2006, p. 316).
Cereja, 1995, chama atenção para o fato de Lima Barreto ter sido um dos poucos escritores a lutar contra o preconceito, tema evidenciado em obras como: Clara do Anjos (1922), e Recordações do Escrivão Isaias Caminha (1909).
A obra mais conhecida de Lima Barreto é Triste Fim de Policarpo Quaresma, 1914, na qual estão presentes alguns dos elementos principais do Modernismo, como o nacionalismo, a aproximação da arte com a vida comum e o início do preconceito social.
Outro Pré-Modernista foi Monteiro Lobato, tal como afirma Infante (2005), que além de ser famoso por suas obras infantis, também foi bastante aclamado como um intelectual polêmico.
Monteiro Lobato nasceu em Taubaté São Paulo, foi um escritor de grande prestígio e também atuou nas lutas sociais e políticas. Na concepção de Infante (2005), Lobato sonhava com um Brasil moderno, impulsionado pela ciência e tecnologia e, por isso, suas obras muitas vezes são criticas claras ao pouco ou quase nenhum desenvolvimento cientifico brasileiro.
Também em Lobato, afirma Infante (2005), é possível percebermos o nacionalismo, retratado por meio do livro Idéias de Jeca Tatu, que traz uma critica clara ao comodismo brasileiro e ao atraso nos vários níveis intelectuais e científicos.
Os traços marcantes do pré-modernismo estão presentes nos contos de Lobato, sendo suas personagens inspiradas em vilarejos decadentes do Vale do Paraíba, além do Sitio do Pica-pau amarelo,
Apesar de almejar o desenvolvimento brasileiro, Lobato foi um escritor extremamente conservador em relação às artes e causou uma grande polêmica com o artigo “Paranóia ou mistificação”, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em vinte de dezembro de 1917. Nesse artigo, Lobato discorre a respeito da exposição de arte moderna feita pela pintora modernista Anita Mafalti em 1917, como podemos constatar na citação a seguir:
A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente à natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento (2009 p01).
Lobato foi mal visto pelos modernistas que o consideraram, segundo Infante, um passadista literário, devido à aversão que o escritor tinha de algumas correntes estéticas. Essa aversão fez com que Lobato se tronasse alvo de duras criticas.
Outro gênero a ser apreciado no contexto modernista vem a ser a poesia, cujas transformações chegou a chocar o público. Oswald de Andrade define a poesia modernista no Manifesto Pau-Brasil da seguinte forma: “A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.” (Correio da Manhã, 18 de março de 1924)
2.1 A Poesia Modernista da Primeira Geração.
“A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.”
- Oswald de Andrade.
A poesia que almeja os modernistas, tal com descreve Oswald de Andrade, vem a ser aquela que retrata o cotidiano em uma linguagem simples sem rebuscamentos.
O primeiro representante da poesia pré-modernista foi Augusto dos Anjos, pois foi ele quem trouxe o antilirismo e colocou em xeque o conceito de boa poesia, por usar termos anti poéticos como: escarro, vômito, germe e verme, tal como afirma Alfredo Bosi:
(...) ao caráter original, paradoxal, chocante mesmo, de sua linguagem, tecida de vocábulos esdrúxulos e animada de uma virulência pessimista sem igual em nossas letras. Entretanto, fosse o léxico exótico a única nota diferente desse livro, não teria ele recebido a atenção que a crítica mais inteligente e mais séria lhe dedicou e lhe tem dedicado. (...) Em Augusto dos Anjos, a palavra científica e o termo técnico, tradicionalmente prosaicos, não devem ser abstraídos de um contexto que os exigem e os justificam. Ao poeta do cosmos em dissolução, ao artista do mundo podre, fazia-se mister uma simbiose de termos que definissem toda a estrutura da vida (vocabulário físico, químico e biológico) e termos que exprimissem o asco e o horror ante essa mesma existência imersa no Mal.(BOSI, 2005.p.287)
Para Augusto não existe Deus ou misticismo, apenas a ciência e a angustia do homem em saber o sentido da existência. Essas características podem ser constatadas no trecho transcrito a seguir, o qual faz parte da única obra de Augusto dos Anjos e intitulada de EU:
Já o verme — este operário de ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida, em geral, declara guerra.
(ANJOS, apud Infante, 2005.p.454).
Infante afirma que Augusto dos Anjos surpreende pelo uso da linguagem coloquial e do vocabulário considerado baixo, ou seja, antilírico, pois usava palavras de baixo calão. O poeta combina elementos parnasianos, simbolistas e expressionistas, tal como afirma Infante.
Preocupação formal, sugestão musical, exageros e deformações expressivas, explorando um vocabulário rico em termos científicos, utilizando a sonoridade particular das proparoxítonas e uma adjetivação originalíssima (INFANTE,2005, p. 454)
No poema Versus Íntimos, observamos, por exemplo, a musicalidade presente nas rimas soantes perfeitas dos seguintes versos: “Vês?! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera./Somente a Ingratidão - esta pantera - / Foi tua companheira inseparável!”. (ANJOS, 1971.p.61).
Cereja (1995), afirma que as bases ideológicas do Modernismo foram plantadas no Pré-Modernismo, mas se solidificaram com Semana da Arte Moderna, evento no qual , poetas como Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira apresentaram criações poéticas em que prevalecia o uso de versos livres. Por versos livres, entende-se a poesia feita sem marcação de ritmo, sem metrificação ou qualquer outro elemento que torne sua estrutura fixa ou Clássica.
Segundo afirma Willian Roberto Cereja, são características da poesia apresentada na Semana de Arte Moderna:
O abandono da poesia elaborada nos moldes clássicos, metrificada; liberdade na escolha de palavras e utilização de vocabulário coloquial; síntese da linguagem; fragmentação, uso de flashs cinematográficos , busca por uma língua brasileira, nacionalismo, ironia, humor e temas extraídos do cotidiano. (CEREJA, 1995.p.288).
A Semana de Arte Moderna, também denominada de Semana de 22, aconteceu de 13 a 18 de fevereiro de 1922, e os artistas puderam mostrar diferentes trabalhos, como, pintura, escultura, poesia, literatura e música. Segundo afirma Infante esse evento teve como objetivo a ruptura com as tradições acadêmicas, visando à independência no plano das idéias, das artes plásticas, da musica e da literatura.
O evento aconteceu apoiado por Graça Aranha, escritor Pré- modernista que acabara de chegar da Europa e tivera contato com as vanguardas artísticas, que segundo Salvatore D’Onofrio, foi “o nome dado aos movimentos artísticos e literários que, na Europa, se sucederam ao Simbolismo, a partir do século XX, tendo nomes diferentes em diversos países, futurismo, cubismo, dadaísmo, expressionismos, e Surrealismo.” (D’ONOFRIO,2005, p.504)
O apoio de Graça Aranha, segundo afirma Cereja (1995), foi fundamental para o êxito do evento realizado em São Paulo, na qual, o publico pode ver exposições de artistas plásticos paulistas e cariocas, como Anita Mafalti, Vicenti do Rego Monteiro, Zina Aita, Di Cavalcanti, Herberg, Brecheret, Ferrignac e Antonio Moya. Também houve nessa semana sarais, leituras de poemas, dança e música. Fizeram parte da Semana escritores e compositores como: Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Menotti Del Pichia, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos.
Cereja afirma ainda que desde o fim do século XIX, as primeiras vozes modernistas já eram ouvidas, pois as novas invenções, o desenvolvimentos tecnológicos e científicos, as lutas sociais, a II Guerra Mundial e a Revolução Comunista formaram o pano de fundo que propiciou o surgimento de novas concepções a respeito da arte. No Brasil, essas novas formas de se conceber a arte foi denominada de Modernismo.
Pelo mundo o Modernismo teve vários nomes, segundo D’onofrio (2005), Futurismo, na Itália, Cubismo, na França, Dadaísmo, na Suíça, Expressionismo, na Alemanha e Surrealismo mais específico para arte cinematográfica.
O Cubismo, surgido em 1907, segundo D’onofrio foi um movimento das vanguardas européias e:
(...).0 está relacionado as artes plásticas, Cézane afirmava que a “arte devia reconstruir a natureza através do cilindro. Enquanto o impressionismo procurava apresentar a realidade tal como a vemos, através da percepção, o cubismo tenta apresentar a realidade tal como ela é . Mas, paradoxalmente, o culto ao objeto vai conduzir à destruição do real: a análise e a decomposição sistemática do objeto, desarticulando a forma e reduzindo-a a elementos puramente geométricos, no afã de captar a estrutura profunda das coisas, afastam a arte da verdade de aparência.” (D’ONOFRIO,1995.p.98)
D’onofrio afirma ainda que a proposta do Futurismo “era a destruição de todas as formas tradicionais de cultura, a serem substituídas por uma arte mais condizente com a era da máquina”.(2005,p.225)
Por meio do trecho do Manifesto Futurista, transcrito a seguir, podemos observar a proposta de ruptura dos futuristas:
Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito À energia e a temeridade.
Os elementos essenciais de nossa poesia serão coragem, a audácia e a revolta.
Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.(Felippo Tommaso Marinetti, apud CEREJA,1995.p.278).
Quanto ao Expressionismo Cereja afirma:
Os pintores chamados expressionistas na Alemanha, e fauvistas na França, buscam fazer da obra de arte um reflexo direto de seu mundo interior. Há uma valorização da expressão, isto é, do modo como forma e conteúdo livremente se unem para dar vazão ás sensações do artista no momento da criação. Essa liberdade da expressão assemelha-se à das palavras em liberdade dos futuristas.(2005.p.281).
Segundo Cereja o Surrealismo visava a busca do homem primitivo, a liberação do inconsciente valorização do sonho, tendência ligada à política marxista, cujo foco , na arte, veio a ser a fuga da realidade e a busca tudo o que é antagônico:
O automatismo artístico consiste em extravasar diretamente os impulsos criadores do subconsciente, sem nenhum controle da razão ou do pensamento. Significa pôr na tela ou no papel so desejos interiores profundos, sem se importar com coerência, significados, adequação, etc.. (CEREJA,2005.p.284).
No Brasil, são essas correntes estéticas que influenciam e proporcionam a Semana da Arte Moderna, que segundo Bosi (2006), foi a responsável pela chegada definitiva do Modernismo para a história cultural do Brasil. As principais idéias do movimento eram: nacionalismo;revisão do nosso passado histórico;valorização de temas ligados ao cotidiano (aproximar a arte da vida comum) e urbanismo.
Infante afirma que a primeira fase do Modernismo segue a linha da Semana da Arte Moderna. Essa fase também ficou conhecida como geração heróica. As principais características dessa fase são:
O ataque as formas acadêmicas de arte, defesa da liberdade de criação, direito de ampliar e criar novas formas de arte, liberdade de pesquisa estética, adoção do verso livre, adoção das teorias de vanguarda européia, aprofundamento da investigação critica da cultura e da realidade nacionais, valorização da língua falada e de suas formas típicas de linguagem.” (INFFANTE.2005.p.506).
Segundo Infante a obra de Mário de Andrade era ostensiva, provocadora, falava de temas tirados da nossa cultura, com uma linguagem popular denunciava as desigualdades sociais. Em Paulicéia desvairada, podemos observar as marcas da primeira fase do Modernismo, como, por exemplo, o uso de versos livres e a influência das teorias de vanguarda, como podemos ver no trecho do poema Inspiração, de (Mário de Andrade, publicado em Paulicéia Desvairada).
São Paulo! Comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem Escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bolfetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
São Paulo! Comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
(2009.Livros.p,01)
Nos versos a cima percebemos os contrários “luz e bruma”, característica do movimento surrealista.
Outro ícone da literatura da primeira fase modernista foi Oswald de Andrade. Segundo Infante (2005), Oswald de Andrade recebeu influência direta das teorias de vanguarda européia, que por sua vez, trabalhavam o cubismo e o primitivismo do dadaísmo, as quais podem ser apreciadas no famoso Manifesto da poesia pau-brasil. No Manifesto da poesia pau-brasil , Mario de Andrade buscava explicitar nossa brasilidade através de um projeto poético, como podemos observar no trecho do manifesto transcrito abaixo.
A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça pau-brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil. O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. Pais de dores anônimas, de doutores anônimos. O império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho. A nunca exportação da poesia. A poesia ainda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária. Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram. (ANDRADE, 1924).
Nesse trecho do Manifesto, Mario de Andrade fala da história do Brasil e como nossa poesia não era conhecida pelo mundo, justificando assim a busca do modernismo por uma identidade poética.
Manuel Bandeira é considerado pela crítica um dos pioneiros da primeira geração modernista e, segundo Infante (2005), a poesia de Bandeira era a mais bem sucedida integração entre forma coloquial da língua à linguagem poética. Cinza das horas é considerada por Infante um exemplo da produção de Bandeira, na qual pode-se notar traços dos Modernismos, tais como a busca pela liberdade e a utilização de uma linguagem simples.
Outra característica do Modernismo destacada por Infante em “Sonho de uma terça feira gorda” de Bandeira, vem a ser o uso de versos livres, como se pode constatar nos seguintes versos:
E a impressão em meu sonho era que estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente negro,
Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso
De acordo com Infante a participação de Bandeira na Semana da Arte Moderna se restringiu a envio de um poema “Sapos”, declamado por Ronaldo de Carvalho.
Os Sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!”
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!
O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . ."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei" - "Foi!”
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Na concepção de Infante, o poema “Os sapos”, pode ser considerado um dos primeiros poemas modernistas, em que não há preocupação com rimas ricas. O eu lírico usa um tom irônico e, satiriza os poetas parnasianos chamando-os de sapos boi, sapos cururus e outros, além de citar suas reclamações quanto a forma (vede como primo /em comer os hiatos).
Em conformidade com Infante (2005.p.529) Os sapos é um poema modernista que contém as primeiras características do movimento, como por exemplo a sinestesia (penumbra, urra, brada, sombra imensa), metáforas (falar pelas tripas), a linguagem coloquial (da beira do rio), inversões (a luz os deslumbra) e tantas outras características do modernismo.
Com o fim da Semana da Arte Moderna, segundo Bosi (2006), nasceu uma nova era para o Modernismo que se vislumbra com mais clareza a partir de 1930, a qual ficou conhecida como Segunda Geração Modernista.
2.2 A Poesia Modernista da Segunda Geração
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
- Cecília Meireles
Os versos de Cecília Meireles revelam a liberdade de criação que se instaurou após a Semana da Arte Moderna. A poesia não demonstra mais o poeta extremamente amargurado ou triste, mas apenas poeta. Essa despreocupação com a linguagem é uma característica da Segunda Geração Modernista.
A segunda geração do Modernismo, afirma Bosi (2006), foi mais completa, porque as idéias basilares do movimento já haviam sido consolidadas e os artistas não precisavam mais chocar para chamar a atenção, pois tinham total liberdade para criar sem a preocupação da fuga do clássico ou estrangeiro. Tiveram a oportunidade de alcançar a linguagem própria do Brasil, por meio da qual, era possível retratar o regionalismo brasileiro e demonstrar a preocupação com problemas sociais. A linguagem por eles empregada, tal como afirma Cereja (1995), chegava a ser rude, direta, chocante, como podemos observar nesse trecho de São Bernardo de Graciliano Ramos:
Numa sentinela que acabou em furdunço, abrequei a Germana, cabritinha sarara,danadamente assanhada, e arrochei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto. (RAMOS, 1985, p).
É provável que o leitor acostumado com um abrandamento da linguagem sinta-se chocado com o uso de palavrões como “bunda”, e com o abrandamento da descrição de uma mulher fogosa por” cabritinha assanhada”, mas foi na linguagem mais próxima ao real que o Modernismo fincou suas raízes.
Por volta de 1930, o Modernismo já havia se estabelecido, e segundo Cereja havia a predominância do romance sobre os demais gêneros, com produção das obras de Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego e Èrico Veríssimo, cuja temática é mais regionalista.
Segundo Infante, as obras, cuja temática é regionalista mostram o lado desconhecido do Brasil, sobretudo no que diz respeito aos retirantes, as secas e os problemas sociais, investiga o local, o regional, o particular, de maneira critica tenta interpretar as relações humanas e sociais e dessa forma alcançar o universal.
Segundo Infante, a poesia da segunda fase é caracterizada por um clima de estabilidade dos novos padrões estéticos introduzidos na primeira fase, porque não há mais a necessidade de chocar, de escandalizar. Nessa fase segui-se o ritmo ditado na 1° fase e autores como Carlos Drumonnd, Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes, Jorge Lima e Murilo Mendes destacaram-se com seus poemas.
Infante afirma que durante essa fase, o Modernismo ganhou proporções mais definidas, as obras passam a se preocupar com o sentido da existência humana, os temas se desdobram em poesia amorosa, poesia social, política e regionalista.
A poesia da segunda geração modernista brasileira integra com maturidade as conquistas libertárias da geração anterior – o uso do verso livre e da linguagem coloquial e a tematização da realidade nacional – à rica tradição da poesia da língua portuguesa. Nesse sentido, essa geração é ainda mais livre do que a anterior, porque não tinha msia necessidade de combater a literatura acadêmica, podendo utilizar criativamente toda experiência formal e temática da poesia em língua Portuguesa.. (INFANTE,2005.p.612).
Constata-se, por meio da citação, que nesse período houve maior liberdade de criação e a produção literária não precisou fugir do passado, porque os autores conseguiam, criar dentro do novo estilo, utilizando-se recursos anteriores, mesclando o velho ao novo de forma harmoniosa..
Para Infante a poesia modernista ganha força a partir de 1930, momento em a poesia revela-se mais amadurecida, pois emprega o verso livre, a linguagem informal e fala do cotidiano, sem a necessidade de fugir do tradicional e estrangeiro. Há liberdade para explorar todas as formas de expressão.
Segundo Bosi (2006), poetas como Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Emilio Moura, que sofriam as influências do neo- simbolismo alcançam , através de novas dimensões temáticas e da busca da linguagem essencial. O verdadeiro Modernismo.
Esses poetas, afirma Bosi (2006), que floresceram no modernismo após a década de 30, falavam de política e religião sobre um novo ponto de vista, com liberdade na escolha da linguagem e na busca de experiências metafísicas e herméticas.
A poesia modernista, em conformidade com Bosi (2006) tem como características fundamentais: o pessimismo, o imediatismo, o irracionalismo, o nacionalismo (sem ufanismo), real, que enxerga os problemas da pátria, que utiliza versos livres, mas também utiliza a forma clássica, linguagem essencialmente coloquial, de ritmo fácil, que contém hibridismo e tom agressivo.
A poesia moderna, de acordo com Bosi (2006), é mais ímpeto do que coerência, devido ao fato de os poetas modernistas não utilizarem mais melodias e sim harmonias, bem como o emprego de recursos estéticos como: elisão, parataxe, rupturas sintáticas, neologismo, fragmentação, sinestesia e metáforas.
Há um anseio de renovação da linguagem como se constata na citação a seguir:
Renovar a linguagem está no cerne das preocupações e dos projetos de todos...nessa atmosfera saturada de consciência critica e polêmica, assumem papel de extremo relevo conceito de origem filosófica (alienação, práxis, superação, dialética), que cruzam armas com noções de cibernética e da teoria da Informação (entropia, redundância, emissor, receptor, código, mensagem). (BOSI, 2006, p. 439).
Para os modernistas a arte devia se renovar de acordo com a evolução do mundo, não era mais aceitável a antiga arte simbolista, o moderno era necessário para acompanhar a evolução do mundo, no entanto passado o primeiro instante em que precisavam chocar para serem ouvidos, podiam enfim buscar a harmonia entre o clássico e o moderno. A poesia modernista , segundo Infante, “é a integração de formas fixas e formas livres, mostrando as infindáveis possibilidades geradas por tal integração e relativização” (2005.P. 612).
A poesia modernista retrata o irracionalismo como atitude existencial e estética que segundo Bosi demonstra certa agressividade,
Com Carlos Drummond de Andrade, na concepção de Infante (2005) a poesia ganha versos fortes, densos de significado e formalmente próximos de um equilíbrio clássico, tal como observamos no poema transcrito abaixo:
No meio do Caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
(ANDRADE, 1986. p.196.)
No poema de Drummond o significado é denso e exige reflexão para que se abstraia do poema curto, com versos fragmentados a significação. Faz-se uma análise aprofundada para chegarmos ao eixo temático do poema, o qual propõe um enigma ao ser humano – o que fazer com a pedra? Quem ou o quê é a pedra? Por meio de palavras simples que retratam o cotidiano, Drummond faz o leitor refletir profundamente sobre a própria existência e questionar o outro lado dos valores que em determinados momentos, podem se transformar em pedras no caminho.
Fez parte desse período também a poetiza Cecília Meireles, a qual, segundo Infante (2005), foi uma intelectual que lutava contra o governo de Getúlio Vargas e defendia o ensino laico. Mário de Andrade afirma que a poesia de Cecília Meireles era sensível e profunda, pois continha algo de sonhador e romântico como, por exemplo, ocorre nos verso do poema Canção, transcritos abaixo:
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
(Cecília Meireles, apud Infante.2005.p.619)
A poesia de Murilo Mendes, também se fez notar por sua lucidez e originalidade que segundo Infante (2005) acompanhou toda sua obra, desde a irreverência até a poesia religiosa que tomou conta do poeta em sua segunda fase, eis um poema que demonstra sua irreverência, como podemos observas nos verso de Canção do Exílio.
Minha terra tem macieiras das Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
(FONTE< AUTOR< ANO E P>)
Neste trecho, Murilo Mendes faz uma crítica à canção do exílio de Gonçalves Dias, mostrando assim mais uma características do modernismo, a crítica ao nacionalismo ufanista, a busca por uma linguagem anti acadêmica e o nacionalismo critico.
Outra importante contribuição á poesia modernista foi dada por Jorge Mateus de Lima, alagoano, que iniciou seus trabalhos, segundo afirma Infante, como parnasianista com publicação “XIV Alexandrinos” (1914), mas aderiu ao modernismo em seguida publicando “Poemas (1927).
A obra de Jorge de Lima , para Infante, se cristaliza por equilibrar a poesia moderna sem perder a tradição da poesia em língua Portuguesa, ou seja, buscar uma nova linguagem poética sem esquecer suas origens, brasileiras ou não.
Na concepção de Jorge Lima poesia devia apresentar uma linguagem própria ao poeta:
Que a linguagem poética seja (...) uma espécie de idioma próprio do poeta, nada de mais desejável.Mas, não esquecendo os poetas também (...) que devem comunicar aos outros a sua poesia e não sobre carregá-la de tal obscuridade que se torne incompreensível. A dificuldade da questão de linguagem poética reside principalmente nisso: ser linguagem do poeta e ser comunicável.(LIMA, apud INFANTE, 2005, p. 624).
Nesse trecho o poeta fala da obscuridade da poesia parnasianas, de como a linguagem poética tem que ser inovadora, mas precisa ser entendida por quem lê, e então surge uma das características do modernismo, a linguagem coloquial, a busca por uma linguagem essencialmente brasileira que diga exatamente o quer dizer, e que mesmo em linguagem poética seja passível de entendimento.
Após essa breve apresentação das origens e características da poesia modernista , faremos uma apresentação da vida e da obra de Vinicius de Moraes visando a obter uma visão mais ampla a respeito desse poeta que encantou o mundo com seus versos.
3 Vinicius de Moraes : sua vida , sua obra.
O destino dos homens é a liberdade.
- Vinícius de Moraes
Um dos poetas de grande destaque do Modernismo foi Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes, nascido em 19 de Outubro de 1913, no Sul do Rio de Janeiro na Gávea.
Nascido e criado por uma família amante da música e da poesia, viveu sempre entre dois opostos, o pai Clodoaldo era Dr. em latim e escrevia poemas; a mãe D. Lídia, vinha de uma família de boêmios e amava a música popular.
Vinicius era o quarto filho e foi o escolhido para ter a melhor formação, estudou no colégio Santo Inácio, colégio Jesuíta freqüentado pela elite carioca, e lá obteve sua formação erudita, o que influenciou a primeira fase de sua obra, totalmente voltada para o alto, para as coisas do espírito, como podemos observar nos versos a seguir:
Na treva que se fez em torno a mim
Eu vi a carne
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia a boca o beijo maldito
Eu gritei
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma.
(MORAES, 1933).
Mário Luiz Thompson em um artigo da Publifolha afirma que Vinícius, na infância, viveu entre o mar e a chácara do avô, onde conheceu a vida e a música dos escravos, cujos traços se manifestariam em sua obra nos Afro-sambas que fez em parceria com Baden Powel. Como exemplo podemos citar Canto de Xangô:
Sou filho de Rei Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só o amor em mim
Tudo é só o amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô
(MORAES, 1966.)
A presença da influencia cultura afro se faz notar, por exemplo, por meio da palavra Xangô, nome conferido a um deus ctoniano e, portanto, itifálico. De início, vêmo-lo como divindade hermafrodita. Muitas efígies suas na África – imagens de madeira, tendo no alto da cabeça, destacado, o machado bifronte – mostram, também em destaque, os seios volumosos, é um Deus Do povo da África, do Negro com influências em sua religião o Candomblé.
Segundo afirma Cereja (1995) Vinicius escreveu o primeiro poema quando tinha 7 anos de idade. Em 1927 formou um conjunto com os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós e tocavam em festinhas nas casa dos amigos. Juntos compuseram o sucesso, Fox-canção Loura ou Morena.Em 1930 ingressou na faculdade de Direito no Catete, onde conheceu os integralistas, iniciando assim sua visão política.
Segundo Eucanaã Ferraz Vinicius, cantor e poeta, encantou o mundo com seus versos, compôs musicas, escreveu sonetos e juntou em uma harmonia perfeita a forma clássica do soneto com a voz modernista, como podemos observar nos versos transcritos a seguir:
Soneto de separação.
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
( MORAES, ANO E P)
Nesse soneto Vinicius fala da separação de maneira de forma original, por utilizar-se de linguagem simples e do vocabulário do cotidiano. A composição trata-se de um soneto nos moldes clássicos com catorze versos decassílabos, nos quais as rimas são cruzadas como, por exemplo, no segundo quarteto (vento/ pressentimento) e paralelas no primeiro (bruma/ espuma). A repetição da expressão “De repente” revela a efemeridade dos relacionamentos amorosos, sobretudo os amores da modernidade. O uso de substantivos como “pranto, vento, espuma e chama” acentuam ainda mais o eixo temático sobre o qual a composição se apóia : a efemeridade do amor. O eu lírico encontra-se diluído, sabe-se que ele é a voz poética , mas não podemos defini-lo, pois todas as ações encontram-se no modo impessoal e retratam o que acontecesse no momento da separação por exemplo: De repente do riso fez-se o pranto”. O sujeito da separação, fica em segundo plano, apenas subentendido. Apesar da forma clássica do soneto Vinicius utiliza uma linguagem simples e como efeito estético elege figuras de linguagem como: antítese (riso e pranto; próximo e distante) e metáfora (pranto silencioso e branco como a bruma).
Se em “Soneto de Separação” Vinicius nos revela a dor e o rompimento repentino dos relacionamentos amorosos, tema atemporal e talvez por isso retratado de forma clássica, em” Mulher que passa” , o poeta nos descreve a beleza de uma mulher desejada pelo eu lírico.
Mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
(MORAES, ANO E P)
Nesse poema, o eu lírico idealiza a mulher que vê passar. Pelas formas belas que a mulher ostenta, o eu lírico supõe ser ela a mulher que ele imagina, desse modo põe a nu os julgamentos humanos calcados a aparência. A poesia e o ideal de Vinicius se encontram, pois já dizia o poeta: “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental”.
A comparação da mulher que vê passar com a de seu ideal imaginário, feita pelo eu lírico, na concepção Domício Proença Filho vem a ser “um traço forte do romantismo , em que o poeta buscava a mulher perfeita, idealizada em seu imaginário” (1986.p.5-10)
Vinicius foi um poeta apaixonado pela vida e pelo extremo, se casou nove vezes, e as nove vezes, buscou, segundo Tonia Carrero (2008) a paixão que não extingui-se com o tempo, tomo retratava em seus versos.
Em suas primeiras obras, segundo Ferreira Goulart, Vinicius mostra uma preocupação religiosa exagerada, quase ideológica, como podemos observar na citação a seguir:
Vinicius foi extremamente influenciado pelo neo simbolismo e pela poesia francesa em sua primeira fase, quando escreve O caminho para distância simplesmente repleto de uma visão espiritualista e bíblica, a visão do poeta é turvada pela dúvida entre a luz e as sombra, o céu e a terra, em “Purificação” ele fala de Deus e da natureza, aspirações do alto que o coloca distante da poesia modernista, real, quase palpável, a que ele cederá em breve. (GOULART, 2008).
No poema “Purificação” fica claro as dúvidas do poeta a respeito dos conceitos de divino e terreno, o apelo a natureza e a tudo que vem do alto, distante do cotidiano que trabalhará em sua próxima fase:
Purificação
Senhor, logo que eu vi a natureza
As lágrimas secaram.
Os meus olhos pousados na contemplação
Viveram o milagre de luz que explodia no céu.
Eu caminhei, Senhor.
Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
Eu caminhei.
Nem senti a derrota tremenda
Do que era mau em mim.
A luz cresceu, cresceu interiormente
E toda me envolveu.
A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.
A minha voz subiu até ti, Senhor
E tu me deste a paz.
Eu te peço, Senhor
Guarda meu coração no teu coração
Que ele é puro e simples.
Guarda a minha alma na tua alma
Que ela é bela, Senhor.
Guarda o meu espírito no teu espírito
Porque ele é a minha luz
E porque só a ti ele exalta e ama.
( MORAES, ANO E P>)
Nos versos acima observamos traços de religiosidade e da contemplação de Deus, por meio da contemplação da natureza, da busca pela purificação. Esses aspectos separavam Vinicius da poesia modernista, voltada para o real.
Em conformidade com Faria Jr, foi depois da publicação de Ariana a mulher em 1935, que Vinicius encontrou a essência de sua poesia, a vida real, as pessoas reais com seus sentimentos e dores. Vinicius mostrar seu novo estilo, uma poesia com nuances de sensualidade, de erotismo, uma poesia mais real.
Em 1938, Vinicius ganhou uma bolsa de estudos em Literatura em Oxford e, nesse mesmo ano, conhece Tati, a primeira esposa e grande paixão. Em 1943 ingressou no Itamaraty e, segundo afirma Cereja (1995) Vinicius, formado em letras e direito, viveu duas realidades: a do poeta e boêmio e outra de funcionário público do Itamaraty.
O amor do primeiro casamento revelou-se efêmero e em 1945, o poeta casou-se com Regina Pederneiras, união que durou menos de um ano.
Em 1951 Vinicius casa-se pela terceira vez com Lilá Bôscoli. Nessa época, Vinicius já era reconhecido no Rio de Janeiro, como o poeta do mundo, que conhecia tudo que a cidade começava a conhecer, o ritmo acelerado da cidade grande, o estilo de vida do pós-guerra, as influências vindas do Estados Unidos.
Segundo Goulart (2008), foi em 1953, que Vinicius compôs o primeiro samba, “Quando tu passas por mim”. Após essa composição, a música veio a ser outra atividade artística do poeta que em 1954, tornou-se parceiro de Tom Jobim.
A poesia de Vinicius, em conformidade com Cereja (1995) se transformou. a partir de Cinco Elegias, porque torna-se mais curta, com maior liberdade de expressão e retrata temas do cotidiano: o amor, o dia-a-dia e a valorização do momento. Ao mesmo tempo, Vinicius busca a originalidade e revela a maturidade poética.O eixo de sua temática passa a ser a intimidade dos afetos e o sensualismo erótico.
No entanto, Faria Junior (2008) afirma que Vinicius não esqueceu a poesia crítica, almejada pelos poetas modernistas e, em Balada do mangue, ele retrata , de forma lírica, uma situação real e dolorosa –a proliferação das doenças sexualmente transmissíveis.
Nesse poema, Vinicius choca o leitor por trazer à tona uma questão velada. A mulher com gonorréia, metáfora da flor que exala o perfume da contaminação. Na concepção de Bosi (2006) esse mostrar da realidade de maneira explicita, constitui uma das características marcante do realismo.
A mulher idealizada de “A mulher que passa” e em “Balada do Mangue” vem à tona e se deixa ver com real, com todos os perigos e armadilhas do sexo desregrado. Não é mais a mulher “de boca fresca” ,mas a jovem prostituta que mostra as presas de cadela que uiva , como se constata nos versos abaixo:
Balada do Mangue
Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Loelia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé.
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu...
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar (...)
(MORAES, ANO E P>)
Vinicius também marcou presença no teatro com a peça “Orfeu Negro”, cuja estréia foi em1956. A peça tem um tema musical, cuja letra é de Vinicius e a melodia de do maestro Tom Jobim. Segundo Gil (2008) a peça foi um grande sucesso e surpreendeu o país, devido ao fato de os atores serem negros, uma novidade para o publico.
Vinícius de Moraes em Orfeu Negro transpõe o mito grego de Orfeu e Eurídice, uma trágica e bela história de amor, para os morros do Rio de Janeiro, durante o carnaval. Essa obra de Vinicius ao ser adaptada para o cinema recebeu muitos prêmios, incluindo a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Filme Estrangeiro.
Segundo Eucanaã Ferraz, Vinicius escreveu mais de 400 poemas e por volta de 400 letras de músicas.
Suas publicações são inumeráveis, muitas delas fizeram sucesso internacional como “Cinco elegias “que inaugurou a nova fase de sua poesia.
Goulart (2008) afirma que Vinicius adotou o clássico em sua poesia, trabalhando principalmente o Soneto, mas deixou para traz a obsessão pela estética, o rebuscamento, o objetivismo e a impessoalidade do parnasianismo, encontrando em sua poesia a revelação do íntimo.
Ao longo de sua carreira Vinicius fez parcerias com Tom Jobim e João Gilberto, das quais resultou a Bossa Nova, um novo ritmo, cantando com voz macia e acompanhando pela batida do vilão.
Poeta, compositor , dramaturgo e criador da Bossa Nova, Vinicius deixou aos amantes da poesia , uma vasta obra. Há poemas sensuais, religiosos, sonetos que retratam o amor e a separação, sambas, poesia que mexe com o imaginário infantil e muito mais.Nessa riqueza escolhemos dois poemas de Vinicius para serem analisados com mais profundidade: “Soneto de maior amor” (1957.p.97) e” Poética” (1957,p.48). A escolha se deve ao fato de que em “Soneto de maior amor “ apreciaremos os traços clássicos da poesia de Vinicius , enquanto em “Poética “ poderemos observar o poeta a refletir sobre a criação da poesia. Esse ato reflexivo de Vinicius constitui um dos traços marcantes da Modernidade.
4 O Clássico e o Moderno na Poesia de Vinicius de Moraes.
A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
- Oswald de Andrade.
Nesse trecho do Manifesto Pau-Brasil, Oswald de Andrade chama atenção para o fato de que a poesia deve ter sua origem nos fatos do cotidiano. È a realidade circundante que deve ser explorada e transformada em criação estética.
Vinicius de Moraes foi um expoente da poesia que tomava do real o material a ser transformado e elementos estéticos, tal como podemos constatar nos verso do poema “Tarde em Itapoá”:
Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar
Depois na praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de coco
No poema, Vinicius explora o fato comum de ira à praia em uma linguagem simples, mas carregada de significação. Durante a leitura do poema, o leitor consegue sentir a tranqüilidade de uma tarde na praia. As imagens criadas pelo uso de substantivos como “mar”, “arco-íris”, “água de coco”, remetem o leitor à praia. O verso “O dia pra vadiar” revela a linguagem do cotidiano sobretudo na grafia da preposição para , a qual é grafada tal como se fala no dia- a - dia “ pra”.
Se no poema acima observamos a exploração de fatos do cotidiano, nos sonetos Vinicius explorou temas atemporais que acompanham a humanidade em toda sua existência. Como exemplo podemos observar o tema do amor presente no soneto que analisamos a seguir.
O soneto em apreço foi escrito em 1938. Nele observamos que Vinicius escolhe a forma clássica (soneto), para retratar o tema do amor. A reiteração da escolha da forma para tratar da temática do amor , pode ser motivada pela atemporalidade do tema, uma vez que o ser humano sempre busca o amor perfeito, idealizado, que encaixe em uma forma , tal como faziam os poetas clássicos , ao buscarem a perfeição da forma na composição poética.
Soneto do maior amor.
Maior amor nem mais estranho existe A
Que o meu, que não sossega a coisa amada B
E quando a sente alegre fica triste A
E se a vê descontente dá risada. B
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer--e vive a esmo
Fiel á sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Para D’Onofrio, a palavra soneto é de origem Italiana e vem do diminutivo suono (“som”, música, canção),geralmente com o seguinte esquema rítmico: abba/abba/cde/cde.
Em conformidade com Cortez e Rodrigues, o soneto “ é a forma mias viva e fecunda das formas fixas. Codificado por Petrarca, vem da Itália e foi introduzido na França pela escola Marot, antes de se tornar gênero preferido dos poetas franceses Du Bellay e Ronsard” (2005, p.81).
O soneto possui estrutura fixa,segundo afirma Cortez e Rodrigues: “Composição poética densa típica da dolce stil nuovo, versando , normalmente, o amor, tem forma fixa constituída por duas quadras (ou quartetos) e dois tercetos, em versos decassílabo (...). As rimas são dispostas de maneira estrita : abba abba cda dcd, com variante nos tercetos cde, cde.” (2005, p.81).
Constata-se que a composição acima, tal como nos mostra, a disposição gráfica está estruturada na forma de soneto, sendo composta por dois quartetos e dois tercetos. No próprio título da composição fica explicito a forma eleita para se tratar do amor, tema geralmente explorado nessa forma de composição.
No soneto em apreço, o eu lírico enuncia que não falará de um amor qualquer , mas do amor que ele nutre pelo ser amado, o qual revela as contradições desse sentimento que o desassossega devido a intensidade com que ele ama.
O título do poema apresenta uma inversão (maior amor), e nos sugere que todo o poema seguirá o mesmo esquema, além de explicitar que o poeta falará de um amor específico e não de um amor qualquer.
Podemos observar por meio da escansão do primeiro quarteto transcrita abaixo, que soneto possui versos decassílabos, isto é, possuem dez silabas métricas, característica formal dessa forma clássica de composição. A seguir apresentamos a escansão do primeiro quarteto , com objetivo de demonstrar a forma clássica da composição.
Mai / or a / mor / nem / ma / is / es / tra / nho/ exis / te
Que o / meu,/ que / não / so / sse / ga a / coi /sa a / ma / da
E / quan / do a / sem / te a /lê / gre / fi / ca / tris / te
E / se / a vê / dês / con / ten / te / dá / ri / sa / da.
Constatamos também que no primeiro quarteto as rimas estão dispostas de forma cruzadas A,B,A, B. Em conformidade com a Enciclopédia Larousse Cultural , a palavra rima é de origem grega rhythmos, e em termos literários significa “ igualdade ou concordância de sons, a partir da sílaba tônica da palavra final de dois ou mais versos” (2009, p.1) .
Podemos contatar que Vinicius de Moraes, para conferir mais musicalidade a composição faz uso de rimas soantes tais como são toantes, ou seja, aquelas em que há maior identidade sonora entre as vogais e as consoantes como por exemplo nas rimas do primeiro quarteto composta pelas palavras “existe, triste, amada, risada”. Quanto a posição da silaba tônica contamos se tratarem de rimas graves ou femininas por serem compostas por palavras paroxítonas. No primeiro quarteto as rimas são, quanto ao valor, ricas, pois são compostas de palavras de diferentes classes gramaticais (existe/triste; amada/risada).
Analisando lexicalmente constatmos que no primeiro quarteto, Vinicius utiliza diferentes classes de palavras e faz uma mistura de substantivo, advérbio e adjetivo, os quais promovem a intensificação da forma estranha do amor que eu lírico tem pelo ser amado: “ maior amor, nem mais estranho”.
Vinicius de Moraes explora o estranhamento do amor intenso e contraditório por intermédio do uso de antíteses (alegre/triste), pontuando assim, a confusão causada nos sentimentos do eu lírico pelo amor, que embora seja retrato como incomum e estranho, volta a ser o sentimento de amor.
Constata-se que , no segundo quarteto, assim como no primeiro, as rimas são cruzadas e soantes ( existe, persiste, agrada, aventurada). São rimas pobres quanto ao valor, porque as palavras que as compõem pertencem a mesma classe gramatical ( existe, persiste ) e ( agrada, aventurada) são exercem a função de adjetivo.
Como efeitos do verso foi utilizado a elisão no segundo verso do segundo quarteto (se/agrada) e a sinalefa no terceiro verso do mesmo quarteto (da/eterna), bem como o emprego de sinalefa crase (eterna / aventura). Esses recursos permitiram a junção de sílabas métricas que compõem os versos decassílabos.
Para demonstrar os sentimentos do eu lírico perante ao amor, Vinicius de Moraes emprega uma grande quantidade de verbos (, existe, persiste, resiste, fere, vive, toca, prefere , etc.) demonstrando assim, por meio de ações o estranhamento do eu lírico em relação ao amor. As ações também revelam as contradições presentes no amor, que na vida real nunca se concretiza da forma como fora idealizado.
Com relação a escolha da classe palavras, observa-se a preferência por verbos também nos tercetos (tocar, ferir vibrar). Esses verbos alem de explicitarem a ação, no primeiro terceto enfatizam a rítmica do poema, marcada pelo emprego da assonância, ou seja da repetição do e, presentes na sequência de ações “ fere, prefere, ferir, fenecer”. Assim como nos quartetos , o primeiro terceto é composto por suas rimas soantes (ferem fere). Há o emprego da sinalefa no primeiro verso (louco/amor). Quanto a disposição as rimas são emparelhadas (A,A,B), obedecendo a disposição clássica do gênero.
No segundo terceto, o primeiro e o segundo versos, há o emprego de rima soante (ante, ante), cuja disposição encontra-se emparelhada (A,A,B). Nesse terceto, as palavras em destaque são adjetivos que evidenciam como o eu lírico descreve por meio de qualificações, o amor que sente. Qualifica o amor descrevendo-o, por exemplo, como delirante e encerra o poema mostrando ao leitor que o amor constitui uma paixão de si mesmo.
Essa mistura de classes de palavras vem acompanhada de um recurso específico, a inversão, que dá ainda mais ritmo e sonoridade ao poema , como se constata nesses versos: “E que só fica em paz se lhe resiste/O amado coração” ( MORAES, 1957.p.97)
Quando Vinicius apresenta o tema no primeiro quarteto /maior amor nem mais estranho existe/, já nos prepara para entender a forma particular de amar, eixo temático do poema. Ao longo da composição discorre sobre essa forma inusitada de amor e no último terceto conclui utilizando adjetivos (desassombrado, doido, delirante) que comprovam a tese e que finalizam sua teoria dizendo ser fiel sua própria lei, a seu próprio jeito de amar.
A composição em forma de soneto retoma os moldes clássicos, mas retrata o tema do amor , sentimento particularizado pela forma com que o eu lírico afirma amar, descrito em uma linguagem simples, cotidiana. O uso de palavras do vocabulário do cotidiano como paixão, delirante, fiel, vida , revelam o lado moderno da poesia de Vinicius, ao explorar um tema atemporal , valendo-se da mistura da forma clássica com a linguagem coloquial.
Na análise do poema Poética podemos perceber essa mistura claramente, por se tratar , também , de um soneto, composto por 14 versos, disposto em dois quartetos e dois tercetos.
Poética
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
O título “Poética”, é obscuro, misterioso, porque pode ter vários significados. Em conformidade com Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2004, p. 1586), entende-se por poética tanto a “teoria da versificação” , como a “arte de fazer versos”. Nesse sentido podemos inferir que o poeta irá apresentar uma forma de compor versos, porém a leitura do poema em sua totalidade pode nos remeter a própria vida do poeta, vivida de modo semelhante a poesia. O titulo sugere também que o eu lírico retrata a poesia específica de Vinicius, demonstrando o modo de escrever e de conceber o fazer poético. Poética, também, pode ser uma metáfora empregada, pelo eu lírico, que estende um convite ao leitor para refletir sobre o modo de encarar a vida. No entanto o importante é que Poética neste caso não pode ser definida nem como adjetivo, nem como substantivo, já que não existe nenhum outro elemento que à defina, causando assim o obscurecimento já citado.
No entanto, podemos, numa análise mais detalhada do poema, perceber que o eu lírico não explicita o tema, nem o sujeito, mas fala de uma das características do sujeito do poema. Poética é a definição que Vinicius encontrou para resumir sua personalidade e seu jeito de enxergar a vida, pois a poesia moderna tem por característica principal retirar da vida, do real os elementos que serão transformados em efeitos estéticos na poesia. Viver, portanto, é uma poética.
Poética é um soneto composto por dois quartetos e dois tercetos, como podemos observar, por meio da disposição dos versos na composição.
A seguir apresentamos escansão do poema com o objetivo de facilitar a análise a ser realizada.
Poética
De/ ma /nhã es/ cu/re /ço A
De / di / a / tar / do B
De/ tar /de a/ noi / te / ço A
De / noi / te / ar / do. B
A oes / te / a / mor / te
Com / /tra / quem / vi / vo
Do / sul / cati / vo
O es / te / é / meu / nor / te.
Ou / tros / que / con / tem
Pa / sso / por / pa / sso:
Eu / mo / rro / on / tem
Nas / ço / a / ma / nhã
An / do / on / de há / es / pa / ço:
– Meu / tem / pó / é / quan / do
Pela disposição gráfica do poema , constatamos que ele se enquadra na categoria do soneto, porém ele não pertence à classificação clássica, pois não tem uma forma fixa, fato que pode ser observado pela diferença entre o numero de silabas poéticas do primeiro quarteto, presentes por exemplo, entre o primeiro verso, composto por cinco sílabas poéticas, e o terceiro verso com quatro sílabas poéticas. Ao longo do poema a variação métrica se mantém e demonstra a liberdade poética, característica do Modernismo.Consta-se portanto a junção da forma do soneto com a liberdade métrica da poesia moderna, que revela um dos aspectos da poesia de Vinicius.
Analisando o primeiro quarteto, podemos observar que as rimas encontram-se disposta de forma cruzada (ABAB) e , quanto a sonoridade, podem ser consideradas soantes ( escureço/anoiteço ). As rimas são pobres, pois as palavras pertencem a mesma classe gramatical como, por exemplo, os verbos escureço e anoiteço, tardo e ardo. São rimas graves, pois as palavras são paroxítonas.
Ainda no primeiro quarteto, temos o uso de sinaléfa (manhã/anoiteço) e de elisão (tarde/anoiteço). Consta-se também o emprego de antítese, pois o eu lírico afirma que de manhã ele anoitece e de tarde ele amanhece, demonstrando assim o lado boêmio que anima a vida dos poetas.
A comparação metafórica presente na ação de anoitecer de manhã e arder a noite, reforça ainda mais a suposição de que o eu lírico refere-se a vida boemia dos poetas
Quanto ao uso do vocabulário, observamos o emprego de substantivos que marcam o tempo , ou seja , os períodos do dia, e verbos revelando a ação do eu lírico sobre o passar das horas que compõem o dia.
No segundo quarteto as rimas são interpoladas (ABBA), e como no primeiro, em relação a sonoridade são soantes (ivo/ivo). Quanto ao valor, observa-se a presença de uma rima rica, ou seja aquela composta por palavras de classes gramaticais diferentes o substantivo “morte” e o advérbio “norte”. Nesse quarteto o poeta emprega apenas elisão, presente no primeiro verso ( A oeste/ a morte).
Se no primeiro quarteto as palavras revelam a ação do eu lírico sobre os períodos do dia, no segundo, o eu lírico enfatiza os pontos cardeais Norte, Sul, e Oeste. Em cada um desses pontos cardeais, o eu lírico manifesta uma atitude, pois no Oeste ele afirma estar a morte, o Sul o cativa, porém o Oeste embora seja o ponto de encontro com a morte é também o local para o qual o eu lírico se dirige. Nesse quarteto conta-se a luta da vida conta a morte. Para marcar a oposição entre vida e morte, o poeta vale-se de versos curtos, com sentenças afirmativas e acabadas. O substantivo morte designa para o eu lírico o estado estático do qual foge, o que fica claro com o verbo vivo.
As rimas do primeiro terceto são femininas ou graves, pois são composta de palavras paroxítonas (escureço/anoiteço;morte/norte;ontem/contem). Quanto a disposição contata-se o uso de rimas alternadas.
Encontramos no terceiro verso do primeiro terceto o uso de sinalefa (morro/ontem).Quanto ao vocabulário, esse terceto segue a mesma escolha dos versos que compõem os quartetos e o eu lírico emprega substantivos e verbos para criar a antítese entre o estático em oposição ao móvel, a morte e a vida.
No ultimo terceto não há rimas. Essa escolha estética é denominada por D’Onofrio ( ANO E P) de rima perdida ou órfã, uma vez que as palavras que compõem o final dos versos não apresentam nem semelhança gráfica e nem fonética entre si. Essa escolha estética de Vinicius foge ao padrão do soneto clássico e revela a influencia das concepções da poesia moderna no que diz respeito a ausência de rimas entre os versos.
O ultimo verso desse terceto conclui o poema e revela que o eu lírico demonstra que o tempo do poeta está acima da temporalidade marcada pelas horas. O uso mais freqüente de verbos determina ação do eu lírico, colocando-o em movimento, mostrando a constante busca do poeta de viver de uma forma diferenciada das demais pessoas. Se considerarmos o titulo da composição nessa perspectiva, podemos afirmar que ele aponta para a vida do poeta, ou seja o eu lírico retrata o dia-a-dia do poeta, revelando o quanto ele tem de diferente em relação as demais pessoas.
Como recursos dos versos, observa-se o uso de elisão em (nasço/amanhã) e uma sinalefa em (ando/onde).
Vinicius não se aprofunda nas figuras de palavras e cria um poema quase todo de versos fragmentados, que por si revelam a fragmentação da vida, sempre dividida em regiões e horas que marcam cada conjunto de ações do ser humano. Imposição a qual o eu lírico tenta se safar afirmando que seu tempo é “quando” , pronome relativo que enfatiza a relatividade da vida.
Embora composto por um vocabulário simples, as palavras exigem atenção e reflexão por parte do leitor, para que haja uma leitura mais significativa, uma vez que Vinicius trabalha opostos, manhã/escureço e coloca em xeque qualquer expectativa de um tempo linear tanto na vida do poeta, quanto na vida dos demais seres humanos, pois estamos sempre condicionados ao “quando” para realizarmos nossos feitos.
Segundo Moisés (2008), a primeira estrofe começa com uma ordem lógica; manhã-dia-tarde-noite, que é quebrada logo em seguida pela construção “De tarde escureço”.
Ainda segundo Moisés (2008), a segunda estrofe trabalha uma atitude de liberdade, o eu lírico guia-se pelo “oeste” e não pelo norte como os demais, demonstrando assim uma imensa liberdade em escolher seu caminho, seu destino. No último verso, Moisés afirma que o eu lírico privilegia o circunstancial, ou seja, o eu lírico determina o tempo, o quando, fazendo assim seu destino.
Constatamos que “Poética” vem a ser um poema com características bem modernistas, como o uso do vocabulário coloquial, a inovação quanto ao estilo, a busca pela liberdade e a marca registrada de Vinicius, ou seja, a lírica que fala do eu, como se falasse do mundo.
Se compararmos os dois poemas, podemos perceber que tanto no primeiro, quanto no segundo a mistura é a mesma, clássico e moderno, no entanto os versos do primeiro são contínuos (forma clássica) e no segundo fragmentados (forma moderna).Tanto em um como no outro Vinicius utiliza opostos (triste/alegre; manhã/escureço) , o que poderia obscurecer o significado do poema, mas a escolha da linguagem coloquial permite um poema mais claro de significado, o que é uma característica modernista.
Os dois sonetos têm, estruturas parecidas, mas o que os liga é o fato de serem a junção de influências de períodos diferentes, modernismo e parnasianismo, por um poeta que descobriu a forma perfeita de juntar o velho e o novo para criar uma poesia inédita e atemporal.
Por toda essa mistura, de estilos e épocas, de influências e formas Vinicius é um autor atemporal, inclassificável do ponto de vista de períodos literários e imortal pela criação de versos que sobrevivem ao tempo, falam a juventude de hoje, assim como daquela época, em que o poeta viveu.
5 Considerações Finais.
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
- Vinicius de Moraes.
A apreciação da poesia de Vinicius revelou que apesar dele ter feito parte do período literário modernista, não podemos afirmar que sua obra é essencialmente modernista, pois durante sua vida, a poesia que escreveu foi sofrendo mutações e adaptando tendências e estilo próprios de movimentos literário diversos.
Vinicius escreveu em linguagem coloquial, falou do cotidiano, mas também usou a forma clássica do soneto, foi influenciado pelo simbolismo e pelo realismo quando apresenta o mundo em uma lírica que choca, mas revela,
Também sofreu influências do romantismo, onde falou de amores eternos e desilusões, colocando a mulher como centro de sua poesia e à idealizando.
Suas obras são lidas hoje como eram na época em que forma publicadas, pois em linguagem atemporal, podem ser entendidas e apreciadas por todas as gerações.
As analises revelaram que em seus sonetos Vinicius retrata o amor valendo-se de uma linguagem simples, com palavras do cotidiano, que possuem uma grande carga de significação e expressam toda a emoção e inquietação daqueles que amam.
Em “Soneto do maior amor”, a forma clássica e vocabulário simples revelam que cada ser , ao amar, considera que o seu sentimento seja o maior, pois o que diferencia o amor é a intensidade com que se ama. Como a intensidade dos sentimentos não pode ser mesurada cada um pode afirmar que nutre o maior amor. Constatou-se também a beleza com que o poeta demonstra as contradições inerentes ao amor, que quanto mais intenso mais estranho se revela.
Em “Poética”, o eu lírico retrata não o fazer poético, mas a vida, vivida e sentida pelos poetas de uma forma diferenciada. Se há diferença entre a forma de viver do poeta e a das demais pessoas, o poema por sua vez apresenta a mesma distribuição espacial do soneto, mas na sua essência afasta-se da forma clássica, por conter versos curtos e ausência de rimas, pontuando entre a forma e o conteúdo a diferença entre a estética clássica e a moderna.
Por sua história de vida singular e por sua obra infinitamente bela e atemporal, Vinicius de Moraes criou uma lírica atemporal, com uma temática diversificada, mas é sempre lembrado e apreciado pela beleza dos sonetos que exploram o amor. Sentimento para o qual ele esteve atento e retratou com zelo e encanto.
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